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O Esférico

Página independente de apoio ao Sporting Clube de Portugal. Opinião * Sátira * Análise * Acima do Sporting Mais Sporting

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O Esférico

17
Dez19

De Luva Branca // Santa Clara 0 Sporting 4

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Sem inventar, sem recorrer a alquimias confabuladas no córtex delinquente do cérebro, o Sporting arrancou ontem a sua melhor exibição, até à data, no campeonato português. Podemos apenas imaginar o que deve ter custado a Silas decidir a equipa para este jogo. Silas — cujo voto de silêncio o reveste duma aura de monge trágico num cenário de apocalipse — não exibe aquele ar de angústia reprimida por acaso. É um homem torturado. À noite, depois de deitar os jogadores e passar a pente fino o hotel à cata de ultras atrás dos cortinados, recolhe aos seus aposentos, onde fica a sós com velhos fantasmas. De um lado tem um anjinho que lhe sopra ao ouvido líricas delicadas sobre consistência, identidade e lógica num colectivo desportivo. Do outro lado tem um diabrete que lhe sussurra fábulas pérfidas, garantindo-lhe que a melhor maneira de provar o seu valor é congeminar uma complexa equação quântica na qual Jesé, Eduardo e Rosier possam coexistir no corpo enxertado dum monstro futebolístico mais dado a feitiçarias de savana do que à prática de chutar a bola.

Porém, após uma agitada véspera que lhe comoveu a alma, Silas optou pelos conselhos do primeiro. E assim, quando ontem o Sporting subiu ao relvado do Estádio de São Miguel, apresentou-se à refrega com os 11 jogadores que, neste momento, aparentam dar mais garantias à equipa — no sistema que melhor rentabiliza as suas características.

Afoito em teoria, mas cândido na sua essência, o Santa Clara mostrou ser o adversário ideal para o Sporting nesta fase perigosa da época. Não é por acaso que não vence há 7 jogos, assim como não é por acaso que os tiros que lhe decretaram a morte cerebral tenham sido disparados a fechar a 1ª parte e a abrir a 2ª — espaço temporal do velório para equipas em desinvestimento psíquico.

Melhores em campo? Luiz Phellype, Bolasie e Ristovski — com menção honrosa para Vietto. É verdade que raros são os opinadores que mencionam o macedónio num contexto de lisonjeio. Mas é, na humildade dos 2,5 milhões que custou, tudo aquilo que Rosier não consegue ser do alto dos seus faraónicos 8 milhões. É menos destrambelhado do que o francês no critério com que define as jogadas, e mais sólido, quer a atacar, quer a defender. Ontem, a sua presença fez-se sentir sobretudo em finos pormenores, que taparam momentos de potencial desequilíbrio do colectivo. Nunca será um jogador de excelência, mas é o melhor lateral de raiz que temos no plantel — algo que deveria suscitar a preocupação de todos. Já Bolasie, por seu turno, resgatou do passado o golo que a justiça lhe devia, tal é o empenho e alegria que empresta ao jogo — uma alegria, claro está, um tanto rústica e despojada, como um churrasco de Domingo, mas ainda assim legitimadora do título de "empréstimo do ano". Ele corre, ele pula, ele atira-se, ele rebola — e confere a esta cacofonia de movimentos uma intuição técnica residual, diria que nascida do instinto de sobrevivência, não tanto do talento inato. Fez um belo golo de cabeça, de costas, numa rotação perpétua em gravidade zero, numa ode à complexidade que, basicamente, prova porque jamais poderia ser um avançado. Esse papel está destinado a Luiz Phellype, um rapaz de modos melancólicos que chega a dar a impressão de empurrar as bolas para a baliza por despeito, tal é a solidão que o consome lá na frente. Mas empurra-as — e já o fez por oito vezes esta época.

Demoraram 24 horas a chegar, mas foram quatro murraças de luva branca bem espetadas no focinho encapuzado do veneno que corrói o clube.

09
Dez19

A Dois Tempos // Sporting 1 Moreirense 0

O Esférico

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Quando Bolasie introduziu a bola na baliza do Moreirense aos 11', a alegria libertada parecia corporizar o corolário natural dum jogo que começara firmemente assente numa lógica de posse, domínio, audácia e organização. Era também o selar simbólico de algo maior, o anel matrimonial colocado no dedo desta relação de interesse entre o congolês e os sportinguistas, que vêem nele, na época de todos os perigos, um exemplo de profissionalismo e paixão pelo jogo, isto por oposição, precisamente, à ausência desses mesmos predicados em alguns outros jogadores ontem em campo.

No fio da navalha é como muitas vezes o Sporting se encontra. E, nesta era de precisões tecnológicas e cegueiras selectivas, foram 14cm aquilo que o VAR descortinou sobre a ilegalidade do golo. Tivesse Borja sido mais astuto e iniciado a jogada cruzando primeiro as pernas do adversário em vez da bola e nada disto teria acontecido, tal como decreta a nova bitola estabelecida no Boavista-Benfica.

O certo é que a partir daí o Sporting entrou numa espécie de falência de órgãos invisível à vista. O jogo tornou-se desligado, consequência de um divórcio entre a mente e o corpo, as ideias e as pernas, a vontade e a objectividade. A depressão pós-VAR instalou-se na equipa e voltámos a ver laivos de irregularidade a pintarem o relvado, intercalando momentos de apatia com jogadas de perigo — estas mais por incapacidade do adversário do que por virtuosismo colectivo. Não foi por falta de treino, decerto, mas porque a míngua de soluções obriga a que se depositem as esperanças em elementos deficitários, como foram os casos de Jesé (um remate de perigo e nada mais), Vietto (em decréscimo de há 3 jogos a esta parte), ou Wendel, que nos dias que correm mostra menos alegria no seu futebol do que uma viúva num velório. E o elemento geralmente aglutinador do baralho — Bruno Fernandes — foi ontem carta fora dele.

Num cenário normal, o Sporting fez mais do que o suficiente para marcar 3 ou 4 golos. Mas numa conta de dividir os lucros mal dão para as despesas, e isto só mesmo depois de o único ponta-de-lança do plantel aparecer para oferecer a sobremesa. Bolasie, o próprio, viria a protagonizar mais uma tripleta de lances de perigo, assim como um par de assistências perigosas que não deram em golo. Por causa disso, foi, a par de Mathieu e Maximiano, o melhor em campo. Mas foi só quando Silas — mestre das mil tácticas — discerniu o óbvio que as coisas mudaram. A cada oportunidade, Luiz Phellype demonstra que, não sendo um primor, é a solução mais lógica para uma equação complicada. Assim, ainda se foi a tempo de emendar aquilo que parecia destinado a ser uma correria inglória para o empate, num jogo em que o Sporting foi superior, mostrou bom futebol a espaços, mas em que lhe faltou qualidade nas decisões. Depois de testar contra o Gil Vicente um inovador sistema de 4-4-20 losangos, com mais ângulos do que faces, Silas derivou ontem para um sistema com (quase) mais pinos do que galgos. E no meio da nem sempre lúcida sofreguidão, apenas as saídas de Vietto e Jesé permitiram que as contas pendessem definitivamente a favor da vitória.

P.S.: Logo numa altura em que Neto se afirmava como uma alternativa valiosa, lesionou-se com gravidade, mercê dum lance macabro em que tudo fez para liderar pelo exemplo e pela garra. Rápidas melhoras, pois de um Neto destes muito estamos necessitados.

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