Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Esférico

Página independente de apoio ao Sporting Clube de Portugal. Opinião * Sátira * Análise * Acima do Sporting Mais Sporting

Página independente de apoio ao Sporting Clube de Portugal. Opinião * Sátira * Análise * Acima do Sporting Mais Sporting

O Esférico

09
Mar20

Palmadinha Psicológica // Sporting 2 Aves 0

O Esférico

Sporting-CP-x-CD-Aves.jpg

Parte do encanto das mudanças de treinadores reside na folclórica "chicotada psicológica", um safanão de poeiras que deixa toda a gente na sala aflita das alergias durante umas horas, numa agitação pulmonar que chega a ser confundida com vigor e irreverência física. Ainda que os efeitos a longo-prazo de tais mudanças sejam questionáveis, muitas vezes os efeitos imediatos cumprem o seu propósito. No SCP, por exemplo, Inácio ganhou um campeonato, Bento finalizou 05/06 no 2º lugar, Sá Pinto derrubou o Man. City e mesmo o sucinto Keizer chegou a convencer parte das bancadas de que, a partir dali, Alvalade seria uma espécie de bar aberto de onde todo os solteirões sairiam sempre de mão dada com a rainha do Carnaval ao final da noite.

Mas as "chicotadas psicológicas" raramente produzem soluções a longo-prazo. Razão pela qual fiquei, ironicamente, esperançado com o jogo de ontem. Brilhantismo, nem vê-lo. Velocidade tão pouco. Inspiração, muito menos. Tirando o resultado, três dias de Amorim não parecem ter surtido o mais pequeno efeito no futebol do Sporting. Na prática, do estado comatoso em que a equipa saiu de Famalicão, ontem o renascimento manifestou-se meramente num estertor cadavérico na cama do hospital, posto o que o corpo enfermo do nosso futebol se virou custosamente para um dos lados, fez um xixizinho na algália, queixou-se da posição da almofada e depressa regressou ao estado vegetativo original, com um 2-0 na mala e já não foi mau.

Foi, por assim dizer, uma palmadinha psicológica. Para já. Pois para Amorim o verdadeiro trabalho começa agora, na ala de psiquiatria, mais concretamente, já que o primeiro grande obstáculo a vencer é o bloqueio mental que os jogadores sentem sempre que a bola vem ter com eles, acobardados com a cobrança das bancadas, mistificados com o vazio da vida, plenamente cientes de que, no ambiente actual, uma salva de assobios no momento errado pode custar-lhes o emprego. Razão pela qual o futebol do Sporting parece equivaler-se, neste momento, a uma espécie de carrossel para menores de 6 anos, animado por uma mecânica rudimentar, cautelosa e previsível, na qual os jogadores recebem a bola, pensam nas mil e uma maneiras como a morte os poderá levar, e optam, regra geral, por desfazer-se da mesma da forma mais segura possível — o que, convenhamos, é uma dinâmica responsável para um lar de 3ª idade, mas gera poucos benefícios numa actividade que costuma laurear quem corre mais e melhor.

Do banco, Amorim assistiu, atónito, ao esfrangalhar de um clube com mais de 100 anos de vida. A sua chegada não produziu qualquer fogo-de-artifício. Mas talvez seja melhor assim. O Sporting não precisa de picos de emoção e curativos na hora. Precisa é de alguém que meta as mãos à obra e comece por remover o entulho espalhado no chão. Com um contrato longo, Amorim terá mais tempo para esse trabalho. Que remédio... Talvez estejamos a assistir à inversão dos pressupostos da "chicotada psicológica". E isso seria muito bom.

01
Out19

Do Céu Caiu um Penalty // Aves 0 Sporting 1

O Esférico

img_920x518$2019_10_01_00_35_22_1609131.jpg

Quem esperava um renascimento qualitativo do Sporting na partida de ontem terá de esperar mais uns tempos. A prova de que o nosso futebol se escreve hoje por linhas tortas é que podemos dar por nós a ignorar o jogo, pegar no carro, ir amparar a esposa em trabalho de parto, e voltarmos à partida na certeza de que não perdemos nada de especial — rigorosamente nada. Mas, em relação a isso, pouco Silas poderia fazer no espaço de quatro dias. É certo que o novo treinador também teve a sua quota parte de tiros ao lado ontem, como foram as apostas em Jesé, Eduardo e Borja. E se Eduardo ainda ornou a sua insonsa mediania com um par de remates perigosos, Jesé fez precisamente o contrário, promovendo um recital de hipotéticos passinhos de dança num contexto de total aversão à bola, potencialmente letais numa boite nocturna, mas infelizmente inúteis num jogo de futebol. Até agora, todos os esforços para encontrar Jesé, que anda há largos anos desaparecido, revelaram-se infrutíferos, não obstante a Interpol estar metida ao barulho. E quem se atrever a dizer que o avistou ontem, à hora de jantar, num relvado em Vila das Aves, está certamente a fiar-se numa perigosa dose de optimismo.

O contraste, neste navio dos emprestados, veio com Bolasie, um rapaz cuja abnegação — nem sempre efectiva, mas certamente valiosa — ontem nos valeu o triunfo. Foi um penalty literalmente caído do céu, numa altura em que o futebol do Sporting assemelhava-se a uma âncora presa ao fundo dum mar de banalidades. O dedo de Silas — se dedo de Silas houve — notou-se da forma mais subtil. Não num empenho palpável à luz do dia, muito menos na diversidade de soluções, mas na mais fina filigrana de solidez da qual escorreu a gotícula de felicidade que nos permitiu manter a baliza inviolada pela primeira vez em 23 anos. E não é que o Sporting não tenha tentado ser fiel à tradição. Ao ser passivo nas bolas paradas, ao ser indolente na recuperação, ao ser pouco criterioso nos espaços que escolhe para perder o esférico. Contámos com a boa fortuna dos postes, é verdade. Mas eu gosto de pensar que, algures na subjectividade penta-dimensional do futebol, estava escondido o grãozinho de premeditação que nos permitiu levar os 3 pontos. O que fica claro é que esta equipa não tem golo — jamais poderia ter golo. Vive dos pontapés de Fernandes, e quando estes não aparecem o nosso futebol parece não ter outra finalidade senão esperar pela morte. Não creio estar enganado se disser que, ontem, o primeiro remate no interior da área do Aves apenas surgiu na 2ª parte, já depois da entrada de Luiz Phellype.

Mais do que jogar bom futebol, o que importava era ganhar. E, por vezes, ganhar no meio do caos pode dar o impulso de que a equipa precisa para encarar os próximos desafios.

P.S.: De repente, ofendem-se as comadres. Tudo por causa do curso de treinador de Silas. O mundo está cheio de medíocres com o canudo debaixo do braço. Eu, no lugar de José Pereira, estaria mais preocupado com os muitos treinadores "habilitados" que não demonstram ter sequer aptidões para orientar um churrasco de Domingo, quanto mais equipas de futebol. No Belenenses, Silas fez o que muitos outros não conseguiram fazer: dar-lhe estabilidade no meio do caos. Não é um currículo genial, mas é, por si só, a prova 'ad hoc' de que pode desempenhar o cargo. Comparar a profissão de treinador de futebol com a profissão de médico só vem demonstrar o desnorte de quem o faz. Quando um cirurgião falha uma artéria alguém morre. Quando Wendel falha a baliza, na pior das hipóteses, há uma porta que estremece algures. Não obstante, perante um quadro de fiscalização em constante evolução, mais uma vez fica exposto o risco que Frederico Varandas assumiu com esta opção. No Belém, ninguém pareceu preocupar-se com o nível IV de Silas. No Sporting, como já percebemos, tudo ganha outra dimensão.

Mais sobre mim

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D