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O Esférico

Página independente de apoio ao Sporting Clube de Portugal. Opinião * Sátira * Análise * Acima do Sporting Mais Sporting

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O Esférico

04
Nov19

Chover no Molhado // Tondela 1 Sporting 0

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Nem de propósito, o Sporting teve em tempos um avançado cedido pelo PSG chamado Carlos Bueno. Isto numa altura em que o PSG era o PSG do Pancrate, e não o PSG do Mbappé. Por isso, esse tal de Bueno era exactamente aquilo que poderíamos esperar dum jogador emprestado pelos parisienses em 2006: uma espécie de Jesé em tudo, mas ligeiramente mais tosco em tudo também.

Dá-se, porém, que esse Bueno fez uma coisa que jamais me saiu da memória. Não me refiro ao poker marcado ao Nacional. Refiro-me ao sprint olímpico que o uruguaio fez no relvado de Alvalade, logo após o apito inicial duma partida qualquer. O árbitro inaugura as hostilidades, o adversário sai com a bola, e o Bueno, no estilo carnavalesco que o caracterizava, lança-se numa correria sôfrega, dir-se-ia que encarnando um mensageiro quinhentista que se vê subitamente a braços com novas da invasão espanhola às portas de Portalegre. No espaço de 15 segundos correu todas as ermidas do reino de Alvalade: as quatro bandeirolas de canto, o grande círculo, a área contrária e o túmulo de Peyroteo. Não conseguiu ficar com a bola. E no resto do jogo não mais deu sinal de si, tal como o Sporting na época.

Serve este exemplo para quê? Para um pouco de tudo, talvez, visto que vamos no 1456º episódio da saga Alvaláxia XXI, uma série que, em 2050, passará apenas como um segmento obscuro num documentário do Canal História dedicado a civilizações extintas.

Quis o destino que, num dos jogos mais interessantes do consulado de Silas, o Sporting sucumbisse, aos 88', vítima dos seus velhos pecados. Haverá exemplo mais perfeito do que é este clube? Um Sporting que, esforçado ou não, ruidoso ou não, emergirá sempre da neblina do sacrifício, invariavelmente, para revelar o seu corpo de pedinte andrajoso. Há muito que somos apenas aparência. Silas, é claro, não tem culpa das terríveis lacunas estruturais que esta direcção e o anterior técnico legaram à equipa. A sua intervenção estará sempre limitada por esses mesmos constrangimentos. Ser muito razoável ou pouco razoável: é neste reduzido espectro que se definirá o seu êxito. Ainda assim, é inegável que errou ao privar a equipa da sua única referência na área, e a substituição de um jogador vulgar (Doumbia) por outro ainda pior (Eduardo, que colocou Wilson em jogo no lance do golo) foi o maior acto de desinspiração leonina desde a venda de Moutinho ao Porto em 2010. Onde uns vêem uma injustiça contra-corrente no golo do Tondela, eu vejo a consequência dum factor de incerteza vindo do banco, numa altura em que a equipa estava num período sólido de assédio ao reduto contrário. Não há coincidências. E isto logo no dia em que Miguel Luís começou a sair da casca. Azar.

Tudo parece alucinação neste Sporting. A começar pelos dirigentes, passando pelos treinadores, e terminando nos adeptos, que continuam a rasgar as vestes como se fosse expectável que uma equipa que joga com Eduardo, Doumbia, Jesé ou Rosier, tivesse a obrigação de dar uma que seja para a caixa. Repetidamente vimos o presidente a garantir que esta equipa é superior à da época passada. Mais recentemente, Hugo Viana — cujos méritos se ficam pelo impecável corte do seu fato — assegurava a imensa "competitividade" deste plantel, anunciando nos jornais um dilúvio de títulos iminentes. E o próprio treinador, ainda anteontem, num brado de cavalaria mais quixotesco do que Joanino, estreou-se nesta patética dança das promessas, falando no título como uma coisa tangível. No entanto, à 10ª jornada, este Sporting, que nos afiançam ser prodigioso, está a 10 pontos do líder, a 8 do Porto e a 6 do — pasmem-se — Famalicão. É eliminado por equipas do 3º escalão. Vai no 3º técnico da época. Não tem referências. Parece uma banca de trapos numa medina em Marraquexe: incoerente, desorganizada e altamente especulativa. Não será mais realista assumirmos que estão a fazer-nos passar por parvos?

Esta época vai ser um constante "chover no molhado". Não servirá ao clube chegar a Maio com uma direcção ainda mais fragilizada do que está agora. As falhas são escandalosamente negligentes e sugerem uma inaptidão irremediável. Lamento apenas que quem de direito não saiba retirar as consequências dos seus erros. Nisso, começam a ser ominosamente parecidos a um outro elenco que, há não tanto tempo assim, também se recusava a fazê-lo. Não acabou bem.

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